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sexta-feira, 1 de maio de 2015

Para chegar a Lua, Nasa adota o sistema métrico ao invés do inglês

"Haverá o dia em que todos os livros de matemática estarão no sistema métrico!"


Proclamação sobre pesos e medidas em Manchester, 1556.

Com essa frase e um brilho de esperança nos olhos, o personagem Seymour Skinner, diretor da escola primária de Springfield, arrastou milhões de fãs pelo mundo a fora.

Skinner, o folclórico e certinho personagem do desenho animado "Os Simpsons", não existe na vida real, mas poderia ser qualquer diretor ou professor de escola dos Estados Unidos, às voltas com contas feitas no sistema inglês de medidas, ainda usado no país.

De fato, pensar em pounds e milhas ao invés de quilos e quilômetros faz dos EUA uma minoria, ao lado da Libéria e Burma, que ainda usam o sistema inglês. Em todo o resto do mundo o sistema adotado é o bom e velho conhecido sistema métrico, que aprendemos a usar desde criança.

Régua com os dois sistemas de medidas 

Conhecendo os diversos problemas causados pela incompatibilidade de medidas, a NASA, a Agência Espacial Americana, também resolveu ceder, e anunciou que todas as suas operações serão feitas a partir de agora no sistema métrico, já objetivando o retorno dos astronautas à Lua, previsto para 2020.



A decisão é uma vitória não somente do sistema métrico, que pela decisão aumenta em 27% seu uso dentro do sistema solar, mas principalmente para o espírito de cooperação internacional na exploração da Lua. A decisão foi tomada após uma série de encontros entre representantes da NASA e de mais 13 agências espaciais, onde foram discutidas formas de coordenar seus programas de exploração lunar. A padronização do sistema métrico, obviamente, era um dos passos nessa direção.

"Quando fizemos o anúncio de nossa decisão, os representantes de outras agências espaciais só faltaram nos beijar. Todos ergueram suas taças e brindaram ao mesmo tempo", disse Jeff Volosin, um dos diretores da NASA na área de sistemas de exploração. "Acredito que a NASA foi vista durante muito tempo como "teimosa" pelas outras agências. A decisão foi nossa maneira de expressar nosso espírito de cooperação diante dos projetos lunares", completou.

As reuniões, que começaram em abril de 2006, incluíram representantes das agências espaciais da Austrália, Canadá, China, Europa, França, Alemanha, Inglaterra, Índia, Itália, Japão, Rússia, Coréia do Sul e Ucrânia. Todas, de uma forma ou de outra, tem algum tipo de interesse na exploração lunar. "Naturalmente existe a competição e interesses privados de cada país envolvido. O que procuramos são áreas onde existam objetivos comuns, que nos permitam juntar forças e conhecimentos que possam ser usados por todos da melhor maneira possível", disse Volosin.

O sistema de medidas é uma dessas áreas. Todos concordaram que ao usar um sistema único de medidas, as habitações e veículos usados na Lua e desenvolvidos pelas diversas agências espaciais, seriam mais compatíveis entre si. Isso seria fundamental em casos de emergências, onde peças de reposição de uma base poderiam ser utilizadas nas outras. Não haveria preocupação ao tentar encaixar uma porca de 15 milímetros em um parafuso de 5/8.

Emergências à parte, o uso do sistema métrico facilitará aos países formarem novas parcerias e colaborações após suas operações lunares estarem em funcionamento. Todos os dados, tanto operacionais como científicos, serão compatíveis. Cálculos de como um robô deverá se movimentar para atingir a borda de uma cratera serão muito mais precisos e homogêneos.

Apesar da Nasa usar o sistema métrico desde 1990, o sistema inglês de unidades ainda é usado em toda a indústria aeroespacial norte-americana, forçando a agência espacial a fazer cálculos nesse sistema. Na prática, isso significa que o sistema inglês continuará a ser usado, com muitas missões fazendo uso de ambos os sistemas ao mesmo tempo.


Prejuízo milionário

Essa confusão de sistemas já causou enormes prejuízos de tempo e dinheiro, e se tornou célebre com a perda da sonda Mars Climate Orbiter em 23 de setembro de 1990. Na ocasião, ao invés de entrar na órbita de Marte, a sonda simplesmente queimou na atmosfera do planeta, após atingir o ponto de aproximação 57 quilômetros mais baixo que o previsto. Após uma série de investigações, os especialistas chegaram à conclusão que o erro se dera devido ao uso de dois sistemas de medidas diferentes usados nos diversos softwares de controle da sonda. Enquanto o JPL, Laboratório de Propulsão a Jato, calculava a órbita em metros, o centro de controle em Denver calculava os mesmos parâmetros no sistema inglês, sem conversões.

Sentimento de cooperação

Desta vez, o sentimento de cooperação no retorno à Lua é salutar e muito diferente do sentimento hostil que existia durante a guerra fria, entre os anos de 1950 e 1960, quando a competição desenfreada entre os EUA e a União Soviética pela conquista espacial, torrou bilhões de dólares em objetivos comuns. Desta vez a competição motiva os países a alcançarem a Lua e montarem ali suas bases, enquanto cooperação entre os povos deverá ajudar a explorar um pouco mais as possibilidades do nosso satélite. Tudo no sistema métrico, para felicidade de Seymour Skinner.

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